Edição Especial VII

A Engenharia da Majoritária

Como a chapa Curi-Greca transforma fragmentação aparente em arquitetura eleitoral

Publicação 07 de Abril de 2026
Estado Paraná
Série Edições Especiais
cubeinteligencia.com.br
"Em política, a melhor arquitetura é aquela que parece acidente."
O Que Mudou Desde a Edição VI
Três fatos novos na última semana:
  1. Alexandre Curi confirmou (06/04) que a formação de chapa com Rafael Greca está sendo debatida diretamente com Ratinho Junior. Não é mais especulação — é negociação declarada.
  2. Mais de 1/3 dos deputados estaduais trocaram de partido na janela partidária (encerrada em 03/04), segundo levantamento de Rodolfo Luis Kowalski publicado hoje. A ALEP foi redesenhada.
  3. Guto Silva foi formalmente retirado da corrida ao governo por decisão de Ratinho Junior. Pesquisas internas não sustentavam viabilidade contra Moro.
O campo governista migrou para uma coalizão multipartidária com candidato fora do PSD, mas sob controle do PSD.
Sobre este relatório
Este relatório analisa a mecânica dessa engenharia — como as peças se encaixam, onde estão as costuras e qual é o ponto de falha que ninguém está calculando.
Anatomia da Chapa — Por Que Curi + Greca
Alexandre Curi
Alexandre Curi
Republicanos
+
Rafael Greca
Rafael Greca
MDB
Complementaridade territorial
Dimensão Alexandre Curi (Republicanos) Rafael Greca (MDB)
Base Interior — 189+ prefeitos, rede Khury Capital — Curitiba e RMC (~3,7M hab.)
Capital político Legislativo — 6 mandatos, pres. da ALEP Executivo — 3x prefeito de Curitiba
Perfil Bastidores, articulação, entrega Visibilidade, obra, carisma urbano
Partido Republicanos — R$ 343,8 mi de fundo MDB — R$ 404,5 mi de fundo
Fragilidade Baixo reconhecimento popular Idade (70 anos), desgaste com eleitor jovem
Cobertura territorial
Curi trava o interior com a rede de prefeitos. Greca trava Curitiba e RMC, onde Moro tem maior penetração. Um sem o outro deixa flanco aberto — juntos, cobrem 100% do território.
Viabilidade conjunta
A soma das duas forças é o que torna a chapa viável — nenhuma delas, isolada, é suficiente. A questão é transformar disposição genérica em voto concreto para nomes específicos.
35%
dos eleitores influenciados por Ratinho Jr
38,2%
do eleitorado do governador vai para Curi
70%
apoiariam o indicado de Ratinho (Quaest)
O fator dinheiro
* Calibração de Leitura: Os valores abaixo representam o Fundo Eleitoral Nacional de cada sigla. O "score" (barra de progresso) demonstra a força relativa de cada candidato na composição deste montante bilionário.
Partido (Candidato/Liderança) Score / Proporção na Coalizão Fundo (Nacional)
PSD (Ratinho Jr.)
36,0%
R$ 420,8 mi
MDB (Rafael Greca)
34,5%
R$ 404,5 mi
Republicanos (Alexandre Curi)
29,5%
R$ 343,8 mi
Poder de fogo somado (Volume Nacional) R$ 1,17 bi
Comparativo PL
O PL dispõe de R$ 886,7 mi — mas precisa dividir entre 27 estados e a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. A fatia disponível para o Paraná pode ser proporcionalmente inferior à da coalizão governista.
A herança Khury como infraestrutura
Linhagem institucional
A linhagem de Curi não é simbólica — é infraestrutural. Aníbal Khury presidiu a ALEP 5 vezes e criou mais de 60 dos 399 municípios do Paraná. As famílias políticas que governam esses municípios devem sua existência institucional ao avô de Curi.
Vantagem inimitável
Quando Curi apresenta 189 prefeitos, ele não está construindo uma coalizão — está ativando uma rede que antecede sua própria carreira. Isso é o que Moro não pode comprar, construir ou importar do PL nacional.
O PSD Que Não Aparece É o PSD Que Governa
O que parece
Perdeu Curi (→ Republicanos), Greca (→ MDB), vetou Guto. Ganhou Cristina Graeml. Parece implosão.
O que é
O PSD não se esvaziou — se distribuiu. Funciona como uma holding controlada por Ratinho Junior.
Ratinho Junior (PSD)
Controlador
Ratinho Junior
Alexandre Curi
Alexandre Curi
REPUBLICANOS
Governo
Interior
Rafael Greca
Rafael Greca
MDB
Vice
Capital
Cristina Graeml
Cristina Graeml
PSD
Senado
Voto conservador
Ponto vulnerável
O braço do Senado (PSD/Graeml) é o mais vulnerável do modelo: com Deltan Dallagnol elegível pelo Novo e fragmentando a direita, a vaga não é garantida — é disputa. Mas a estrutura do governo (Republicanos/Curi + MDB/Greca) é sólida.
Por que essa arquitetura é superior ao modelo clássico?
Evita canibalização
Se Curi, Greca e Graeml estivessem no PSD, disputariam a indicação entre si. Em partidos separados, cada um opera na sua faixa.
Multiplica recursos
Três partidos na coligação = três fontes de fundo eleitoral e tempo de TV.
Blinda a narrativa
Curi pelo Republicanos não é "o candidato do governador" — é candidato de uma coalizão ampla. A pecha de continuísmo se dilui.
Cria redundância
Se Curi tiver problema, Greca pode assumir a cabeça sem desmontar a coalizão. A estrutura sobrevive à troca de peças.
O que Curi realmente disse (06/04)
Alexandre Curi
"Estou conversando muito com o Greca para que nós possamos estar juntos nesse processo, com alguns partidos."
Alexandre Curi — Gazeta do Povo, 06/04/2026
Leitura nas entrelinhas
"Alguns partidos" indica que PSDB, Podemos e possivelmente SD/PRD já estão na mesa.
Alexandre Curi
"O governador foi muito claro: não há uma escolha, não há uma definição."
Alexandre Curi — Gazeta do Povo, 06/04/2026
O que não foi dito
Ratinho permitiu que Curi declarasse a negociação abertamente. Se quisesse bloquear, bastava um telefonema antes. Esse telefonema não aconteceu.
Estrutura proposta por Curi
PSD ficaria com a vice e disputaria o Senado; o candidato ao governo viria de outra legenda. Com Deltan Dallagnol (Novo) elegível e fragmentando a direita no Senado, conquistar uma cadeira via Graeml já é ambicioso — duas seria excepcional. Mas mesmo uma vaga senatorial por 8 anos pode valer mais, em poder institucional, do que o Palácio Iguaçu por 4.
A ALEP Redesenhada — O Terremoto Silencioso
Além da manchete
A manchete de hoje é sobre volume (~18 dos 54 deputados estaduais trocaram de legenda). A análise real está na direção dessas migrações — e o que elas constroem:
Republicanos emerge como partido-plataforma
A entrada de Curi e Márcio Pacheco transforma o partido de coadjuvante em protagonista. O Republicanos oferece estrutura nacional (Marcos Pereira), fundo robusto e nenhuma bagagem negativa no Paraná. É uma casa limpa para uma candidatura nova.
O PL recebe, mas não consolida
Filiou nomes com capital eleitoral individual (Matheus Vermelho, Fahur, Mauro Moraes, Paulo Gomes da TV), mas nenhum levou estrutura municipal junto. São satélites de Moro — não redes. A diferença entre voto contado e voto estimado.
O centro gravitou para Ratinho, não para Moro
A maioria das migrações fluiu para partidos que orbitam o PSD (Republicanos, MDB, PSDB, Podemos), não para o PL. A ALEP pós-janela está mais governista, não menos — o que contradiz frontalmente a narrativa de fragmentação.
Curi com maioria na ALEP tem governabilidade garantida desde o dia 1.
Para Moro, mesmo eleito, os primeiros dois anos seriam de paralisia.
O cálculo que as pesquisas não capturam
Governar o Paraná não é só vencer a eleição — é operar a máquina legislativa no dia seguinte. Curi presidiu a ALEP, conhece cada deputado, sabe onde estão os votos. A transição seria imediata. Moro governaria com uma Assembleia reorganizada ao redor do campo adversário.
Guto Silva — O Homem Sem Cadeira na Mesa
Leitura rasa da mídia
A imprensa trata Guto como "o secretário descartado." É uma leitura rasa.
Guto Silva
Quem é Guto
Luiz Augusto Silva, 49 anos, nascido em Maringá. Vereador mais votado de Pato Branco (2009), deputado estadual mais votado do PSD (2018, 66.412 votos). Como Chefe da Casa Civil (2019-2022), liderou reformas que economizaram R$ 3 bilhões e criou o Descomplica Paraná — reduziu abertura de empresas de 20 dias para 8 horas. Depois comandou Planejamento (2023-2025) e Cidades (2025-2026). É o homem que fez a máquina de Ratinho funcionar em três engrenagens: poder, visão e entrega.
A cronologia do impasse
10/02/2026
Guto declara na Jovem Pan PR: "Meu objetivo é ser cabeça de chapa." Descarta vice e Senado publicamente.
25/03/2026
Ratinho comunica a Guto, em reunião fechada, que ele não será o candidato. Motivo: baixa viabilidade eleitoral contra Moro.
04/04/2026
Guto deixa oficialmente a Secretaria. Sem cargo, sem candidatura, sem destino público.
07/04/2026 — Hoje
Peça sem posição no tabuleiro.
Os quatro destinos possíveis
Efeito cascata
Cada destino de Guto reconfigura o tabuleiro inteiro — governo e Senado ao mesmo tempo. Não existe decisão isolada: acomodá-lo numa posição significa deslocar alguém de outra.
1. Vice-governador 25%
Mas Guto declarou que não aceita. Se for vice, Greca sai da chapa e perde-se Curitiba.
2. Senado pelo PSD 30%
Dupla Guto + Graeml seria complementar. Mas Guto disse que não aceita. Com Deltan elegível, dois nomes do PSD podem dividir o voto governista.
3. Congela para 2030 30%
Guto tem 49 anos. Mas 4 anos sem cargo e sem candidatura é invisibilidade política — quem sai do radar desaparece.
4. Rompe com Ratinho 15%
O PL receberia de braços abertos o operador que fez o governo funcionar por 7 anos — golpe simbólico e operacional devastador.
Ponto crítico
A engenharia Curi-Greca funciona apenas se Guto cooperar. Se aceitar vice ou Senado, a estrutura se completa. Se congelar, funciona sem ele. Mas se se rebelar — a narrativa de unidade desmorona. O que Ratinho ofereceu a Guto em troca do veto? Se a resposta for "nada concreto" — este é o ponto de falha mais provável de toda a engenharia.
A Equação do Senado — Deltan Muda Tudo
A disputa
O Paraná elege 2 senadores em outubro. A pesquisa AtlasIntel (02/04) com Deltan Dallagnol elegível redesenha completamente a disputa.
Contexto essencial
Deltan está no Novo — partido que abandonou o grupo de Ratinho Junior e aderiu à aliança Moro/Flávio Bolsonaro. Deltan é peça do campo adversário. Sua elegibilidade segue juridicamente contestada.
Nome Partido 1o Voto Campo
Deltan
Deltan Dallagnol Novo 21,0% Direita/Lava Jato
Filipe Barros
Filipe Barros PL 18,2% Direita/Bolsonarista
Gleisi Hoffmann
Gleisi Hoffmann PT 16,5% Esquerda
Cristina Graeml
Cristina Graeml PSD 11,7% Governista
Alexandre Curi
Alexandre Curi Republicanos 8,3% Governista
Álvaro Dias
Álvaro Dias MDB 6,2% Irrelevante c/ Deltan
Dois dados que saltam
49,6% → 6,2%
Queda de Álvaro Dias com Deltan no cenário
15-17%
Projeção de Graeml absorvendo votos de Curi
Álvaro Dias liquidado
Deltan absorve o eleitor conservador/anti-sistema que era de Álvaro. A variável Deltan liquida Álvaro Dias como fator. Se Curi for ao governo, seus 8,3% se redistribuem para Graeml.
Fragmentação como oportunidade
A direita racha: Deltan (21%) e Filipe (18,2%) competem na mesma faixa. Numa eleição com 2 vagas, abre-se janela para Graeml disputar a segunda cadeira.
Cenário ideal para Ratinho
Deltan e Filipe se canibalizem, um dos dois fique com a primeira vaga, e Graeml dispute a segunda. O campo Moro fica com no máximo um senador — insuficiente para sustentar um eventual governo estadual.
Governo + Senado: a negociação travada
Negociações travadas
O silêncio de Ratinho ganha novo significado: enquanto não define o governo, não precisa definir o Senado. As duas negociações estão travadas uma na outra — destravá-las exige resolver Guto primeiro.
Se Ratinho "perder" o governo para Curi mas "ganhar" o Senado via Graeml, não perdeu nada — ganhou poder institucional mais duradouro que o Palácio Iguaçu.
Riscos e Pontos Críticos
Curi a 9,8%
Na AtlasIntel, marca 9,8% contra 52,8% de Moro. A tese é que esses números mudam com definição oficial + apoio de Ratinho + campanha. Se em junho Curi não ultrapassar 20%, Ratinho pode ser forçado a trocar o cavalo.
Coordenação de egos
Greca aceitar ser vice, Guto aceitar não ser governador, PSD aceitar não ter a cabeça de chapa. São três renúncias de ego simultâneas. Uma que falhe derruba a estrutura.
Tempo
Convenções são em agosto. Cada semana de indefinição é uma semana em que Moro consolida e a alternativa não existe para o eleitor.
Rejeição cruzada
O eleitor do interior pode não aceitar Greca ("curitibano elitista") e o de Curitiba pode não aceitar Curi ("político de bastidor"). Pesquisa de rejeição cruzada é essencial.
A variável Deltan — nos dois sentidos
Se o TSE barrá-lo, Filipe herda o eleitorado Lava Jato e sobe para ~33%, Álvaro ressurge. Mas se PL e Novo coordenarem — a direita consolida um candidato único ao Senado com 30%+ e a janela de Graeml se fecha. A elegibilidade de Deltan é a variável mais instável, mas a coordenação entre PL e Novo pode ser ainda mais perigosa.
O silêncio de Ratinho
Cada dia sem definição é moeda de negociação (partidos concedem mais) e risco (Moro consolida sem adversário). Se o silêncio se estender além de junho, deixa de ser estratégia e vira omissão — com custo real em tempo de campanha.
Estrutura Vence Popularidade?
52%
Moro nas pesquisas
88,2%
Aprovação de Ratinho Junior
Precedentes históricos
Bolsonaro
2018 — Bolsonaro
Popularidade venceu estrutura. Alckmin tinha máquina, dinheiro, coligações — e perdeu.
Lula
2022 — Lula
Estrutura + popularidade venceram juntas.
Ratinho Junior
PR 2018 — Ratinho
Popularidade ("filho do apresentador") + estrutura (PSD de Kassab) = vitória no 1o turno.
Curi Greca
PR 2026 — Curi-Greca
Aposta que com 88,2% de aprovação, estrutura vence popularidade inflada (37,6pp de diferença estimulada vs espontânea) e sem lastro municipal.
É uma aposta racional. Mas é uma aposta.
Fraqueza de Moro
Não tem onda nacional nem antipetismo recorde como combustível. Enfrenta um governo com 88,2% de aprovação — não um governo rejeitado.
Fraqueza governista
Não tem um rosto. Tem uma engenharia. Engenharias não geram entusiasmo — geram votos organizados. A pergunta é se bastam contra um nome que gera paixão.
O Senado
Paradoxalmente, a desorganização da direita pode ser a maior aliada do campo governista. O governo estadual depende de engenharia; o Senado depende de sorte — ou da falta de coordenação do adversário.
E o relógio está correndo.
Datas Críticas
Data Evento
Abril-Maio Pesquisas testando Curi-Greca vs. Moro — se Curi não chegar a 20%, alarme
Maio-Junho Definição de Ratinho sobre apoio público
Junho Resolução da equação do Senado (Graeml vs. Deltan/Filipe) + destino de Guto
20/07 a 05/08 Convenções partidárias — deadline absoluto
16/08 Início da campanha eleitoral oficial
04/10 Primeiro turno
Fontes Utilizadas
Edições anteriores desta série
I — A Desistência (23/03) II — O Dia Seguinte (24/03) III — A Debandada (26/03) IV — O Tabuleiro Invisível (30/03) V — O Cruzamento do Rubicão (31/03) VI — Análise Preditiva (01/04)